História, Memória e Patrimônio

Ó Deus nos salve a Angoma, Puíta
Candongueiro, Tambu, Caxambu
Senhora Sant’Ana, eu sou o Jongo
Meu Santo Antônio, Meu São José
Cacurucaia, eu to; Perengando eu tô…
Mas, não posso morrer
Cacurucaia, eu to; Perengando eu tô…
Mas, não posso morrer!
Ê, ê,ê, Salve o Rosário. Ê, ê, ê Minhas Santas Almas, almas…
Ê, ê,ê, me Salve todos jongueiros! Ó Deus nos Salve o Cruzeiro das Almas

Jongo/Caxambu é uma forma de expressão que integra percussão de tambores, canto e dança. Característico da região sudeste do país, era praticado pelos trabalhadores escravizados de origem bantu, nas lavouras de café e de cana-de-açúcar, como forma de lazer e resistência à dominação colonial. Foram eles e seus descendentes que, em suas comunidades, mantiveram e transmitiram às novas gerações os saberes, práticas e valores contidos nesta manifestação.

Tambu, batuque, tambor, caxambu. O Jongo tem diversos nomes, e é cantado e tocado de diversas formas, dependendo da comunidade que o pratica, assegurando a diversidade desta rica manifestação cultural. Preserva, no entanto, traços comuns, como o profundo respeito pela ancestralidade, a valorização dos enigmas cantados e o elemento coreográfico da umbigada.

Ao longo do século 20, as comunidades jongueiras estiveram envolvidas em complexos e dinâmicos processos socioculturais que condicionaram diferenças especificidades.

No Sudeste brasileiro, em muitas das comunidades com descendentes de escravos, o jongo desapareceu, tanto pela dispersão de seus praticantes em conseqüência da migração e dos processos de urbanização, como pelo obscurecimento destas práticas por outras expressões de maior apelo junto ao crescente mercado de bens simbólicos. Ou também devido à vergonha motivada pelo preconceito, expresso pelos segmentos da sociedade abrangente, relativo às práticas culturais afrobrasileiras.

Em outras comunidades, no entanto, o jongo tem sido um fator de integração, construção de identidades e reafirmação de valores comuns – estratégias em que a memória e a criatividade são fundamentais.

Diante das desigualdades econômicas, da exclusão social e da invisibilidade deste fazer cultural junto aos demais segmentos da sociedade brasileira, as comunidades jongueiras têm desenvolvido soluções próprias, alternativas para a preservação de seus saberes e expressões.

Essas questões têm sido tratadas de forma crítica pelos jongueiros por meio de iniciativas como o Encontro de Jongueiros – evento anual que reúne comunidades e praticantes do jongo de São Paulo e do Rio de Janeiro (os recursos são parcos para que as comunidades capixabas possam participar). E também por meio da Rede de Memória do Jongo, nascida a partir do Encontro de Jongueiros, com o objetivo de, segundo seus idealizadores, estreitar os laços de sociabilidade entre as comunidades jongueiras e fortalecer os canais de articulação com a sociedade em geral.

Este processo de mobilização e organização é a prova de que as comunidades jongueiras estão conscientes de que possuem um bem cultural de grande valor, um conjunto de saberes ancestrais, testemunhos de sofrimento, mas também de determinação, criatividade e alegria dos afro-descendentes.
Nesse sentido, o Registro do jongo como patrimônio cultural do Brasil, concedido pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) no ano de 2005, é o reconhecimento por parte do Estado da importância desta forma de expressão para a conformação da multifacetada identidade cultural brasileira.

Este Registro chama a atenção para a necessidade de políticas públicas que promovam a eqüidade econômica articulada com a pluralidade cultural; políticas que garantam a qualidade de vida e a cidadania. E condições de autodeterminação para que as comunidades jongueiras mantenham vivo o jongo nas suas mais variadas formas e expressões.

     Texto adaptado do Dossiê do Jongo – Fonte: Dossiê do Jongo – Pag15