Encontros de Jongueiros Sudeste

EncontrodeJongueirosIV  EncontrodeJongueirosV EncontrodeJongueirosVIEncontrodeJongueirosVII

EncontrodeJongueirosVIII

EncontrodeJongueirosIX   EncontrodeJongueirosX EncontrodeJongueirosXII EncontrodeJongueirosXIII MemoriasDoJongo

3.2 O Encontro de Jongueiros – Prof. Hélio Machado Castro (41)

Glorioso Santo Antonio vamos festejar
Pois, aqui chegamos pro seus pés beijar
Ao seus pés está Nossa Senhora das Dores
Cercada de Anjos, coroada de flor
Coroada de flor, coroada de flor
Cercada de anjos, coroada de flor (42)

41 – Professor da Universidade Federal Fluminense – idealizador dos Encontros de Jongueiros.

Em 1968, chegou à cidade de Santo Antonio de Pádua o professor Hélio M. Castro para ministrar aulas de filosofia e geografia. Como era musicista, desenvolveu a proposta de criar um grupo de Madrigal(43) renascentista, que se apresentou em diversas cidades da região.

Ficou bastante interessado pela cultura negra da cidade, ainda mais ao conhecer D. Sebastiana II, neta de africana mina-nagô. Segundo ele, ela dirigia o Caxambú local, mesmo diante de forte preconceito racial e social e do veto das autoridades eclesiásticas das igrejas Católica e Evangélica do noroeste fluminense, existente apesar do Papa ter reconhecido o sincretismo cultural religioso. Apesar dessas perseguições, D. Sebastiana II resistiu e passou a sua tradição a seus descendentes.

No ano de 1995, com a morte D. Sebastiana II, o professor Hélio, ao perceber sua importância, resolveu enviar para a Universidade Federal Fluminense um projeto intitulado“Encontro de Jongueiros”, com o objetivo de proporcionar, aos praticantes de jongo, a sua reunião para que dessa forma discutissem seus problemas e necessidades.

42 – Ponto da Comunidade de Piquete / SP.
43 – Madrigal, segundo o dicionário Caldas Aulete, é um gênero de poesia surgido no século XIV na Itália, de caráter romântico e que se destinava a ser musicado.

O professor Hélio queria aproveitar o espaço do campus da universidade, que tinha planos de ampliação pelo interior do Estado de Rio de Janeiro e demais localidades onde o jongo ainda era presente. Assim, os Encontros se iniciariam, tendo como referência lugares que tinham a manifestação do jongo e que possibilitavam um apoio da universidade.
Dessa forma, ocorrem os três primeiros Encontros de Jongueiros:

Primeiro Encontro (1996) – no Campelo, localidade onde grupos de predominância negra praticam o Jongo / Caxambu, Mineiro – Pau e Folia de Reis.

Segundo Encontro (1997) – praça principal de Miracema / RJ.

Terceiro Encontro (1998) – à beira-rio em Santo Antonio de Pádua, às margens do Ponto da Comunidade de Piquete / SP. Madrigal, segundo o dicionário Caldas Aulete, é um gênero de poesia surgido no século XIV na Itália, de caráter romântico e que se destinava a ser musicado.50 rio Pomba, maior afluente do Paraíba do Sul.

Nesses três primeiros encontros, realizados no noroeste fluminense, participaram as três comunidades locais: Santo Antonio de Pádua, Miracema e Campelo.

EncontrodeJongueirosIV

Quarto Encontro (1999) – Arcos da Lapa, no Rio de Janeiro, local onde a cultura cafeeira se espalhou pelos murais da serra (Tijuca), prosseguindo no histórico eixo Rio – São Paulo através do Vale do Paraíba; assim como o Jongo.

Nesse quarto encontro, somam-se às comunidades que já participavam: o Jongo da Serrinha, Angra dos Reis, Quilombo São José da Serra e Guaratinguetá/ SP.

EncontrodeJongueirosV

Quinto Encontro (2000) – Angra dos Reis, cidade que têm jongueiros e campus da Universidade Fluminense Federal.

Nesse encontro é inserida a primeira mesa de debates, iniciativa que passa a ser comum nos Encontros de Jongueiros.

EncontrodeJongueirosVI

Sexto Encontro (2001) – Valença/RJ, para apoiar a comunidade do quilombo São
José, na luta política pela posse de terra.

Nesse encontro foi comemorado paralelamente ao evento, o centenário da
jongueira Clementina de Jesus e é lançado o manifesto dos jongueiros a favor da
desapropriação do Quilombo São José.

EncontrodeJongueirosVII

Sétimo Encontro (2002) – Pinheiral, que também possui uma unidade da UFF e
mesmo contexto regional cultural.

O cartaz foi em homenagem ao Mestre Darcy, grande liderança do Jongo
da Serrinha, que havia falecido em dezembro de 2001.

EncontrodeJongueirosVIII

Oitavo Encontro (2003) – cidade paulista de Guaratinguetá, sob organização e
apoio da Associação Cachuera, que consiste em um grupo de pesquisa sobre
manifestações culturais do interior de São Paulo, e que contribuiu para que várias
comunidades jongueiras se revitalizassem através de gravações, estudos e
filmagens, tendo um dos maiores acervos audiovisuais sobre “folclore” do Estado
de São Paulo. (44)

A comunidade de Lagoinha/SP participou desse encontro, fato que ampliou
e enriqueceu as trocas entre as comunidades, pela sua peculiaridade de ser uma

44 – Apesar de este trabalho adotar a concepção de cultura popular, mantivemos o termo “folclore” devido à concepção adotada nas pesquisas desenvolvidas pela instituição Cachuera. (53) comunidade jongueira na qual seus praticantes são brancos e ter uma dança
onde homens e mulheres circulam em torno dos tambús.

O jongo de Piquete / SP também participou desse encontro, comunidad que teve sua revitalização, sob interferência da Associação Cachuera.

EncontrodeJongueirosIX

Nono Encontro (45) (2004) – Fundição Progresso, Arcos da Lapa no Rio de Janeiro.

Nesse ano de 2004, foi a primeira vez que o encontro obteve um patrocínio de grande porte da Petrobrás, através da organização da Associação Brasil Mestiço, que desenvolvia pesquisa e acompanhamento junto às comunidades da região do Rio de Janeiro.

Vale ressaltar que dois processos estavam em andamento: a Rede de Memória do Jongo, que será explicada no tópico posterior deste texto, e o fechamento do Dossiê sobre jongo, organizado pelo IPHAN, para registro do mesmo como Patrimônio Cultural Nacional, processo que demandaria estudo específico em trabalhos posteriores a esse de Conclusão de Curso.

Nesse encontro, a comunidade Jongo Dito Ribeiro de Campinas (SP) , que acompanhava os encontros desde o VIII em Guaratinguetá, têm uma pequena participação com alguns praticantes, junto à comunidade de Guaratinguetá, “seus padrinhos”, desde julho de 2003.

45 – As informações referentes à origem dos Encontros de Jongueiros foram retiradas do CD-IPHAN – Dossiê do Jongo, entregue às comunidades jongueiras em 2005. Por isso, do Oitavo Encontro em diante utilizarei minhas pesquisas de campo, participação nos eventos e documentos que fazem parte do Acervo da Comunidade Jongo Dito Ribeiro – Campinas (SP).

EncontrodeJongueirosX

Décimo Encontro (2005) – Santo Antonio de Pádua, à beira do rio Pomba, em homenagem ao Prof. Hélio Machado de Castro, que se encontrava adoecido.

Neste encontro, foi entregue a todas as comunidades presentes a Titulação de Patrimônio Cultural por membros do IPHAN, que justificaram a ausência de todas as comunidades nos relatórios de registro. Durante o processo de registro, outras comunidades foram identificadas, mas, pela necessidade de cumprir o roteiro e datas pré-estabelecidos, não foi possível acrescentá-las ao registro feito.

Foram efetivadas, também no Décimo Encontro, gravações para um Livro- CD, com patrocínio da Natura. Neste Encontro, somaram-se às comunidades participantes dos encontros anteriores as comunidades de Carangola/RJ, Quissamã/RJ, Campos/RJ, Porciúncula/RJ e Campinas/SP (denominada Comunidade Jongo Dito Ribeiro que, pelo que pudemos observar, é a única que leva o nome de seu ancestral).

O prof. Hélio Machado de Castro faleceu meses depois desse evento.

Décimo Primeiro (2006) – Quilombo São José da Serra/RJ – em prol do fortalecimento da titulação das terras do quilombo.

Evento inesquecível devido ao tempo chuvoso, que acarretou numa caminhada mínima de 6 km aos jongueiros que conseguiram subir até o quilombo. Este fato fez com que algumas comunidades ficassem em Santa Isabel, cidade que fica no pé da serra que leva ao quilombo, sendo realizados dois eventos em um só.

No Décimo Primeiro Encontro foi lançado o CD – Jongos do Brasil, gravado no ano anterior, pelo patrocínio Natura, e o “batizado” da comunidade Quilombolas do Tamandaré – Guaratinguetá / SP, pela Tia Maria, jongueira velha, do jongo da Serrinha / RJ.

No decorrer dos anos, algumas comunidades se dividiram. Porém, as causas não serão analisadas nesse trabalho, que tem como foco os documentários gravados anteriormente a estes fatos.

Em 2007, não houve encontro, por conta da ausência de patrocínio decorrente da greve na Petrobrás, fato que gerou a desmobilização das comunidades.

Achamos interessante inserir esse fato, porque os eventos anteriores a 2004 foram organizados pela mobilização autônoma das comunidades e suas entidades, universidades e instituições parceiras, o que por vezes inviabilizava a participação de todas pela distância e estrutura necessária. Entretanto, após a inserção do patrocínio, apesar das comunidades alcançarem maior proximidade e interlocução, se desmobilizaram e perderam autonomia, reforçando a idéia da transformação da manifestação em bem que sofre a interferência das políticas culturais e de seus agentes, discussão feita no Capítulo 2 deste trabalho.

Os Encontros nasceram do desejo pela manutenção e preservação e se tornaram um evento “badaladíssimo” dos universitários, pesquisadores e apreciadores da cultura afro-brasileira. Fato que nos leva a questionar: será este um caminho natural para todas as manifestações culturais que saem do anonimato para ganhar o mundo?

Foi criado no ano de 2007, o Pontão de Cultura do Jongo, com verba captada do MINC – Projeto Cultura Viva. O critério de seleção das comunidades que participariam neste projeto de salvaguarda do Jongo, foi o mesmo adotado pelo IPHAN na seleção das comunidades integrantes do registro do jongo como Patrimônio Imaterial.

O projeto teve como objetivo efetivar o propósito de salvaguardar o jongo e garantir sua permanência, onde seus praticantes receberam cursos, palestras e formações para o aumento de autonomia e continuidade da manifestação, apoiado por professores da Universidade Federal Fluminense.

Esse fator gerou e gera um certo desconforto entre as comunidades que participam dos Encontros de Jongueiros e não fazem parte da Salvaguarda, como das comunidades que fizeram parte do estudos do IPHAN e não foram ainda inseridos nos Encontros de Jongueiros.

EncontrodeJongueirosXII

Décimo Segundo (2008) – Piquete/SP – com a presença de diversas comunidades, o Encontro teve o apoio da Petrobrás e, além das rodas de jongo, se destacou pela amplitude de discussões que compuseram as mesas de debate.

Neste ano de 2008, outros acontecimentos importantes relacionados ao jongo ocorreram no eixo Rio de Janeiro – São Paulo: 27/05/2008 na UNICAMP – Campinas – S/P – lançamento do livro Memória do Jongo – As gravações de Stanley Stein – Vassouras 1949, que possibilitou algumas atualizações inseridas nesta discussão;

11/10/2008 na sede do IPHAN – Catete / RJ – lançamento do Dossiê IPHAN 5 (Jongo no Sudeste). Para este evento, todas as comunidades identificadas foram convidadas a participar, mesmo sem estarem inseridas no Dossiê. Estas são algumas das várias outras situações e ações em que a universidade, seus representantes, associações e “parceiros”, atuam não como praticantes do jongo, mas como articuladores da manifestação e da forma em que ela se representa através de registros e documentos. Outro movimento de grande
importância foi a criação da Rede de Memória do Jongo, que analisaremos em
seguida.

3.3 Rede de Memória – Paulo Carrano (46)

“Os encontros de jongueiros, simultaneamente aos momentos de dança, canto e festa, promoveram comunicações entre sujeitos e instituições de diferentes lugares sociais e territórios culturais. Ao longo dos anos foi se consolidando um sentimento de pertencer
coletivo a um movimento cultural fortemente enraizado nas comunidades urbanas e rurais do jongo, mas generosamente aberto para os apaixonados e comprometidos com esse
patrimônio cultural que se mantém renovado mesmo nas difíceis condições de vida social das comunidades jongueiras”. (47)

46 – Pesquisador e professor da Universidade Federal Fluminense – UFF
47 – CD – IPHAN, Dossiê do Jongo, 2005.58

O objetivo fundamental da Rede de Memória do Jongo é consistir no “estreitamento dos laços de solidariedade entre as comunidades e demais interessados em participar do trabalho coletivo de preservação ativa da memória do Jongo”.

A Rede de Memória do Jongo foi constituída em 2000, por vários grupos jongueiros da região sudeste, em que cada comunidade busca demarcar suas singularidades na relação com as demais, não havendo nenhuma igual à outra.

No término do Nono Encontro de Jongueiros houve uma reunião da Rede de Memória do Jongo, que teve financiamento do SESC – RJ, através da Associação Brasil Mestiço e UFF, para o transporte das lideranças jongueiras que representavam suas comunidades.

Nesta reunião, foram criadas algumas regras para inserção de novas comunidades nos Encontros de Jongueiros e limites na participação dos agentes culturais, parceiros, associações e intelectuais nas decisões das mesmas. Essas alterações nos mostram o quanto as comunidades nem sempre são “ingênuas ou desatentas” no que se refere às decisões e encaminhamentos que envolvam o jongo. Ao mesmo tempo, demonstram uma autonomia e interesses definidos na atuação política das lideranças jongueiras.

Neste contexto, Carlos Rodrigues Brandão (1985) contribui e vem reafirmar as percepções obtidas sobre as alterações na manifestação do jongo e de seus praticantes ao alegar que:

“Há inúmeras razões para isso, e a primeira é a mais pessoal. O ser humano é basicamente criativo e recriador e os artistas populares que lidam com o canto, a dança, o artesanato
modificam continuamente aquilo que um dia aprenderam a fazer. Essas são regras humanas de criação: fazer de novo, refazer, inovar, recuperar, retomar o antigo e a tradição, de novo inovar, incorporar o velho no novo e transformar um com o poder do outro. ‘É sempre igual’, dizia um dançador de jongo de São Luís de Paraitinga, ‘mas é sempre diferente’. ‘O pensamento é comum’, dizia um lavrador de Goiás, explicando as uniformidades dos estilos de ‘moda de catira’,’mas o comentário é de cada um. (48)

A relevância dessa breve explicação sobre os Encontros de Jongueiros e a Rede de Memória do Jongo, como a contribuição de Brandão, é a possibilidade de compreender o pano de fundo dos documentários, porque eles não surgem por acaso e nem isentos desses processos e ascensão da manifestação do jongo.

48 – BRANDÃO, Carlos Rodrigues. “Crer, Rezar, Dançar”. In: Memória do Sagrado: estudos de religião e ritual.São Paulo: Ed. Paulinias, 1985,p.38-39.59

Debates como: indústria e políticas culturais, apropriação de terras quilombolas, a Lei 10639/3 que obriga o ensino da cultura afro e africana nas salas de aulas, a inserção do tema jongo no meio acadêmico, a expansão da UFF, a inserção de historiadores da UNICAMP no debate, a atuação das Associações como Cachuera e Brasil Mestiço e demais movimentos nos remontam à reflexão do grau de interferência e interesses relacionados aos documentários.

Por isso, tentamos entre os vários documentários encontrados escolher aqueles que nos possibilitassem uma maior variedade de elementos para análise, seja pela diversidade das comunidades ou pelas influências e interesses dos atores envolvidos. Seguiremos uma análise cronológica, na busca de percebermos como os documentários posteriores analisaram, avançaram ou retrocederam em relaçãoaos anteriores, aqui elencados.

2001 – Feiticeiro da Palavra – O Jongo no Tamandaré

Documentário exibido e desenvolvido pela TV Cultura e Associação Cachuera de São Paulo, dentro do Projeto Doc. Brasil, sobre a comunidade do Vale do Paraíba paulista, no ano de 2003.

2002 – O Jongo Na Serrinha – Um Tributo a Mestre Darcy

Documentário realizado pelo Grupo Cultural Jongo da Serinha, que foi fundado em 2000, com objetivo de manter e preservar o jongo na comunidade da Serrinha/ RJ. Vale ressaltar que a manifestação do jongo sempre esteve presente na comunidade, mas a pessoa jurídica com projetos e interesses definidos se constituiu em 2000.

2005 – Ritual e Magia no Quilombo São José

Documentário desenvolvido como Projeto Experimental de conclusão de curso de
alunos de jornalismo da PUC Campinas/SP, na comunidade do quilombo São José da Serra, que fica no Vale do Paraíba carioca.

2007 – Jongos, Calangos e Folias – Música negra, memória e poesia

Documentário realizado pela Universidade Federal Fluminense, pelo Laboratório
de História Oral e Imagem (LABHOI/UFF) e pelo Núcleo de Pesquisa em História
Cultural (NUPEH/UFF), com apoio do Edital Petrobrás Cultural / 2005. Neste
filme, várias comunidades são documentadas: do litoral do estado do Rio de
Janeiro norte e sul: Bracuí em Angra dos Reis e Rasa em Búzios; do Vale do
Paraíba: Barra do Piraí, Quilombo São José da Serra e Duas Barras e da Baixada
Fluminense: Nova Iguaçu, Mesquita, Duque de Caxias e São João de Mereti.

3.4 As análises dos documentários:

3.4.1 Feiticeiro da Palavra – Filme documentário, color. Duração 56 min. Diretor: Rubens Xavier. Diretor assistente: Paulo Dias. Pesquisa: Associação Cachuera. Realização: Fundação Padre Anchieta, 2001.

Isso que vocês estão vendo é uma representação (grifo meu)

Do jongo de antigamente, da escravidão, do povo sofrido

Quando chegava a noite, eles pegavam o seu tambú

Entravam nas suas senzalas e cantava os pontos de reclamação

de ardor e de amor

Então o que se passava de dia com eles, eles vinham reclamar a noite

Pra um ficar sabendo o que tava se passando dentro de sua senzala

Eles não tinham liberdade pra falar nada

Eles não tinham liberdade pra dançar61

Eles não tinham liberdade para sorrir, nem mesmo pra sorrir

Eles só trabalhavam, eram obrigados a trabalhar

Todos de cabeça baixa

Eles ficavam muito aborrecidos

Então, quando eles podiam, eles riscavam o ponto deles lá,

cantava e mandava mesmo.

Tendo como pano de fundo a cena de uma fazenda onde escravos tocam jongo, com a sinhazinha na janela e os feitores em torno, observando os escravos cantando próximo à fogueira, aparece Tia Mazé, uma referência da comunidade toda vestida de escrava, com os demais integrantes e figurantes atrás de si, numa roda de jongo que remonta o tempo da escravidão.

Ela fala de representação, imitação desse tempo passado, sinalizando que o documentário parte da intenção de legitimar a comunidade jongueira e seu jongo “tradicional”, como se no decorrer do tempo não houvesse nenhuma alteração.

Fato pouco provável, já que com a perda dos avôs de dona Mazé, de antigos praticantes
e ao mesmo fim do ciclo do cafeeiro, os membros da comunidade migraram das fazendas dos arredores para o bairro Tamandaré, considerado uma periferia de baixa renda da cidade de Guaratinguetá / SP.

Nessas simples frases de abertura, podemos perceber resquícios interessantes do jongo e do momento em que ele foi instituído como forma de expressão coletiva apenas para seus semelhantes e usado como defesa.

Quando tia Mazé evidencia na frase que os escravos, quando podiam, “riscavam o ponto deles lá, cantava e mandava mesmo”, ela retrata a relação de resistência por meio da magia.

Carlos Rodrigues Brandão (1987) observa que na gramática dos cultos de possessão afro-brasileiros – incluindo a umbanda – localizar os feitiços e desfazê-los significava essencialmente:

que acontecimentos em questão são devido à interferência de forças espirituais maléficas convocadas pelo poder de uma agente de feitiçaria e que como há uma intenção social manifestada como desejo de alguém (pessoa? grupo? instituição?) em fazer um malefício mágico a alguém, também é necessário que haja uma intenção explícita, da parte de seus sujeitos socialmente ligados à ‘vítima’, já que a própria não pode se manifestar por causa de sua condição de doença, que o processo de benefício de decodificação do feitiço e sua desativação seja exercida por agentes religiosos (49).

A religião sempre andou de braços dados com o jongo. É sabido aos praticantes de religião de matrizes africanas que riscar o ponto está associado a demarcar intenções, a mandar espiritualmente uma intenção, seja positiva ou negativa, sendo neste caso mais uma forma de defesa dos escravos daquele período.

Circunscrito em uma linha de documentário participativo, o interlocutor e também diretor do filme é parte do mesmo, ao conduzir os processos de acordo com roteiro pré-estabelecido. “Os documentaristas vão a campo; também eles vivem os outros e falam de sua experiência ou representam o que experimentaram”. (50)

O desencadear de cenas faz com que haja a “atuação” do interlocutor, no caso, o Paulo Dias, presidente da Associação Cachuera, numa conversa curiosa com um dos membros da comunidade, Zé Carlos. O primeiro pergunta sobre o que é jongo, como alguém se torna jongueiro, se jongueiro ensina seu conhecimento metafórico e pede para desatar um ponto, entre cenas e entrevistas.

O documentário Feiticeiro da Palavra é dividido em três partes, a saber:

1o) Reminiscência, Festança e Permanência – o cenário é uma fazenda da região com ares do século XVII / XIX, que se alterna entre a casa de jongueiros, tendo além do interlocutor outros integrantes que entrevistam seus pares. As conversas são alternadas pela roda de jongo representada na fazenda, com pontos que legitimam o período como:

Engenho novo do Mané Lopes
Porque o engenho roda se não trabáia
O café bom vai pra cidade
E o carrero sartá de banda…

49 – BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Festim de Bruxos: estudo sobre a religião no Brasil. Campinas: Editora da Unicamp, São Paulo: Ícone, 1987.

50 – NICHOLS, Bill, Introdução ao Documentário. Campinas: Papirus Editora, 2005. RAMOS,
Fernão Pessoa. Teoria Contemporânea do Cinema.P.153.63

Nesta primeira parte, D. Mazé que conta que os seus avós, quando vieram de Portugal para o Brasil, faziam roda de jongo e festas para comemorar a imagem de São Pedro que trouxeram de lá. Sua fala sugere que sua família praticava o jongo ou manifestação similar em região africana colonizada por Portugal.

Uma interessante contradição, pois o jongo é uma manifestação essencialmente brasileira, e, na África, haviam brincadeiras e jogos musicais que se assemelhavam a esta manifestação, mas os elementos de roda, canto e dança que conformaram o jongo são do Brasil. Por isso, a união da imagem de São Pedro com as festas e o jongo é contraditória, mesmo considerando que a crença é ilimitada.

O mesmo acontece com a aparição do cemitério dos escravos, no fundo de uma igreja que, segundo os membros da comunidade de Tamandaré, é uma referência histórica sem nenhum cuidado atualmente. No entanto, não houve discussão no decorrer do documentário sobre a legitimidade dessa informação, o que resultou em um elemento solto e sem sentido no meio do filme.

Os elementos da natureza como lua, matas, rio, fazem os elos entre as cenas, pontes entre conversas e alternâncias de cenários que não seguem uma lógica seqüencial e nem cronológica. Imagens de acontecimentos presentes e a representação do passado seguem sem evidências específicas de quando é um momento ou outro, de ordem cronológica, dentro do contexto fílmico. Ou seja, são apresentadas cenas no início de filme, da comunidade imitando escravos e, em seguida, cenas de entrevistas nas casas desses jongueiros fazendo comentários sobre aspectos do jongo.

Ainda nessa parte, é apresentada a maneira como alguns membros de diferentes religiões passaram a fazer parte da comunidade jongueira e como se relacionam com a manifestação do jongo.

Explicam o que é a demanda numa co-relação entre umbanda, jongo e kimbanda. Classificações que são apresentadas como diferentes, mas sem maiores explicações, ficando óbvias as distinções somente aos conhecedores destas manifestações, já que nenhuma explanação mais efetiva é desenvolvida sobre cada uma delas.

O catolicismo se apresenta na pessoa de Dona Tó, outra jongueira velha da comunidade, que vai à igreja todos os domingos e às terças-feiras, na missa do Santíssimo, alegando que o jongo é festa e nem só de festa o homem vive, sendo necessária a fé. Contrastando com o fato que sua própria inserção ao jongo, se dá através de uma “materialização” de um preto velho, cantando um ponto de jongo que ela passa a cantar também.

Uma diferença entre o jongo de hoje e o de antigamente, sendo esse antigamente não o do tempo das senzalas, mas o logo após a escravidão como mostra o trabalho de pesquisa feito por Maria Lourdes Borges Ribeiro, em suas andanças pelo Vale do Paraíba em comunidades jongueiras, é que o desafio e demandas entre jongueiros eram a base fundamental das rodas de jongo. Hoje, prioriza-se a diversão que o jongo proporciona. Nessa linha, os jongueiros comentam sobre o sentir-se mal na roda de jongo e as mandingas e orações que
são feitas, antes de irem para o jongo. Porém, afirmam que a demanda está na vida independentemente de religião.

Esse bloco é aberto com o ponto de abertura da comunidade “Eu vou abrir o cango ê”, no cenário da fazenda, e termina com o ponto de fechamento “Adeus, adeus povaria eu vou-me embora”, tendo como cenário a casa da Dona Tó, como é chamada pela comunidade.

2o) Festança é o título da segunda parte do documentário que trata dos ciclos das festas juninas de Tamandaré, voltados a Santo Antônio, São João e São Pedro, sendo a festa a este terceiro santo a mais badalada de todas, principalmente pela presença de apreciadores de outras cidades e de São Paulo,motivados pela divulgação do Cachuera.

Este bloco inicia com a cena da reza do terço de São Pedro, santo muito respeitado pela comunidade de Tamandaré, em contraponto à reza de Totonho, que presta oração à entidade “Vó Maria da Bahia”. Se para os leigos pode ser entendida como um ancestral do jongueiro, na realidade Vó Maria da Bahia, é uma entidade que protege a pedido de Totonho a comunidade e para a qual ele presta devoção na linha da kimbanda.

Além das orações, é apresentada a abertura da roda de jongo, em uma dessas festas aos santos citados acima, perto à fogueira.

A importância do tambor na roda de jongo são explicadas, assim como as comidas dadas, a organização da festa pelos festeiros e o preparo da canelinha, bebida de referência aos praticantes de jongo do Tamandaré.

Essa parte do documentário também não segue uma ordem cronológica dos acontecimentos; vai e volta de acordo com o discurso apresentado. Um exemplo disso é durante a festa, quando são mostradas cenas do terço, da roda de jongo aberta e da benção à fogueira e depois o levantamento de mastro, que acontece no entardecer anteriormente à festa.

Esse bloco se encerra com o fim de uma dessas festas, já no clarear do dia, tendo apenas alguns resistentes na dança do jongo, com a fogueira ainda acesa e um casal que faz uma dança, fora da roda, que se assemelha à dança dos pretos velhos, quando encarnados no terreiro. Não fica justificada qual a intenção dessa cena, pois em nenhum momento fala-se sobre a presença de espíritos encorporados na roda de jongo. No discurso do filme, eles estão presentes como forças que contribuem para a proteção da roda ou influenciam
algum jongueiro nos desates e demandas do jongo, de acordo com a intenção que cada um traz dentro de si.

Percebemos que os pontos de jongo entram como secundários e legitimadores do que está sendo dito ou mostrado. Como anteriormente, nesta parte, o último ponto apresentado junto à cena é o “Clareou, clareou, clareou um novo dia”, que encerra o bloco.

3o) Permanência é a terceira e última parte do filme. A jongueira Aracy aparece cantando um ponto de jongo à Mãe Preta, personagem do tempo da escravidão, cultuada em forma de monumento em diversas cidades do Brasil, e, em seguida, há cenas das crianças na roda de jongo. Na seqüência, um jongueiro canta um ponto de jongo em homenagem ao Ribeirão dos Motta. Como esta cena não é explicada acaba ficando descolada do contexto, sem que possamos compreender qual era a relação pretendida no encadeamento de cenas.

No decorrer do documentário, é perguntado aos integrantes da comunidade o que se deve fazer para que o jongo não morra no Tamandaré em Guaratinguetá. Os membros aproveitam a questão para incentivar as crianças a permanecer na roda de jongo, dado que antigamente não era permitida sua participação.

Há crítica direta à cidade de Guaratinguetá, pela ausência do reconhecimento da existência da comunidade jongo de Tamandaré como um bem cultural da cidade. As falas de tia Mazé e de Frazão evidenciam isto:

Guará não reconhece isso não. Aqui não existe jongueiro, aqui não tem pobre e preto, aqui só tem branco e rico.

O interlocutor pergunta sobre por que a tradição do Jongo não é conhecida na cidade de Guaratinguetá, e Frazão, um dos jongueiros responde:

[..] taparam o zóio pra não ver, taparam o zóio pra não ver. Se não enxergar agora, vai ser mostrado… mais valor pra nóis.

A roda de jongo continua, porém nessa terceira parte em outro cenário, que se assemelha a uma escola, onde está acontecendo uma feijoada, com toda a comunidade, possivelmente em comemoração às gravações desenvolvidas.

Outro discurso dos jongueiros é a união e fraternidade entre eles, para que o jongo não morra, pois a inserção da associação Cachuera gerava ciúmes entre alguns membros da comunidade não tão próximos à entidade, representada pela figura do Paulo Dias, conforme análise de Wilson Rogério Penteado Jr. (2004).

Uma forte ênfase a uma escolinha de jongo para as crianças é dada, enquanto o quadro é quebrado pela inserção de três rapazes cantando e dançando um hip hop, que fala sobre jongo, e pelo parecer de Dr. Baltar da Associação Negra de Guaratinguetá, que faz uma crítica sobre a forma passiva como o escravo é apresentado nos livros escolares, culminando no preconceito com as manifestações afro-brasileiras.

Em seguida, é apresentado uma Concentração Umbandista em homenagem a Ogum, orixá da guerra e responsável pela liturgia e abertura de caminhos, e Oxum, orixá dos rios e da beleza, amor e riqueza. Nesta Concentração, a maioria dos praticantes e seguidores não são negros, o que contrasta com os jongueiros do Tamandaré, que fazem uma roda de jongo e são, em sua maioria, negros. (51)

Na seqüência, retorna a cena da conversa com as crianças na roda de jongo, com a escola como cenário, seguida pelos jongueiros jovens que retratam suas experiências no jongo e o desejo de que a manifestação prossiga. Nesse momento, um desses jovens jongueiros, Jefinho, fala e canta sobre seu ponto de jongo, que foi um pedido de licença para sua inserção na roda junto com os mais velhos:

Saravá jongueiro velho, que veio pra ensinar
Que Deus dê a proteção pro jongueiro novo
Pro jongo não se acabar.

O ponto é acompanhado pelas jongueiras velhas, de modo a legitimar seu ponto e sua presença entre os mais velhos na roda.

Assim termina o documentário.

Consideramos interessante tecer algumas considerações sobre o “pessoar de São Paulo”, como os membros da Associação Cachuera são chamados pela comunidade de Tamandaré, que os conhece bem. Em 2004, foi defendida a dissertação de mestrado em Antropologia Social na UNICAMP de Wilson Rogério Penteado Jr., intitulada “Jongueiros do Tamandaré – Um estudo lógico da prática do jongo no Vale do Paraíba Paulista (Guaratinguetá-SP)”, que além de um vasto estudo sobre a comunidade de Guaratinguetá e o jongo, retrata a chegada de Paulo Dias na comunidade e o quanto este fato alterou sua rotina.

51 – A inserção de “brancos”, em um ritual originariamente dos “negros”, como a Umbanda, tem sido muito discutida, principalmente nesse ano de 2008, quando essa religião entra em seu centenário, com vastas reportagens a respeito nos jornais de grande circulação.

Essa aproximação possibilitou que a comunidade participasse de eventos e apresentações em outras cidades, se tornasse conhecida na Rede de Memória do Jongo e participasse do Encontro de Jongueiros. Em decorrência de tais participações aumentou a força de articulação local da comunidade, o que possibilitou a realização do Oitavo Encontro de Jongueiros sediado na cidade de Guaratinguetá (SP). O fortalecimento das ações da comunidade ainda associa-seao documentário Feiticeiro da Palavra.

O Paulo ajuda muito, em tudo, né! Ele ajuda muito, sabe? Ele ajuda na divulgação, ajuda na festa. Ele colabora mesmo. Ele que arruma pra gente sai pra fora, tudo é ele. Custou pras pessoas acostuma com o jongo, né? Daí nós começamos a fazer todo ano, todo ano até que todo mundo começou a perguntar _ ‘E quando que é o jongo?’ ‘Não vão fazer o jongo?’ _ Não é no mês de junho?’.Todo mundo se interessa a saber agora. Mas ficou mais divulgado pro povo depois daquela fita que o Paulo fez. Daí ficou mais divulgado. Nossa! Todo mundo vem, todo mundo fala pra gente “_ Eu posso ajudar? ‘ ‘_ Eu queria ajudar! ‘Eu falo, pode. Pose dar um garrafão de pinga pode dar um saco de pão, né? É uma ajuda gente! Mas antes a turma não tava nem aí. Dia 13 de maio a gente fazia jongo na praça (da cidade) e não aparecia ninguém! Era só mesmo o pessoal de jongo lá, dançava e vinha embora. Ninguém se interessava. Agora que o povo do Guará tá aceitando mais o jongo. Depois que o Paulo fez o filme – você assistiu? – o povo passou, a saber, mais o que é o jongo. Ele passou lá no sindicato, passou na televisão, aí as pessoas se interessaram mais, sabe? (52)

Esse é um dos relatos apresentados por PENTEADO (2004) em seu trabalho, que ressalta a relação da comunidade com Paulo Dias, da Associação Cachuera, e apresenta-o como forte articulador da mesma.

O documentário tem seu mérito e auxilia realmente na preservação da memória e reconhecimento da comunidade. Entretanto, deve-se refletir sobre as alternâncias de cenas nem sempre esclarecidas e a manutenção dos pontos apenas como ilustradores das cenas apresentadas.

A exposição da comunidade em rede nacional – o documentário foi exibido

52 – PENTEADO, Wilson Rogério Jr. – Jongueiros do Tamandaré – Um estudo Antropológico da prática do jongo no Vale do Paraiba Paulista (Guaratinguetá – SP). UNICAMP, 2004.69 em canais de televisão – fez o jongo do Tamandaré sair do anonimato, o que fomentou que suas características fossem influenciadas pela dinâmica imposta por seus contratantes, que passaram a esperar mais do que a permanência de uma tradição. Esperavam um show, com início, meio e fim, além da compreensão de seu discurso, quando o jongo, em sua essência, traz a contradição de ser voltado essencialmente, através de sua linguagem, aos seus participantes. Esta análise ilumina a compreensão do por que os pontos contrapostos às imagens se mantêm como mera ilustração destas últimas. A riqueza da linguagem do jongo é unidimensionalizada pela imagem que busca apreender a multiplicidade de
sentidos presentes na roda de jongo.

De um lado, este documentário divulga a imagem de quem o fez e se preocupa em alinhar os interesses de reafirmação dos seus produtores enquanto pesquisadores e detentores de uma articulação com o objeto até então desconhecido; de outro lado, há os membros da comunidade apresentada, que buscavam o “reconhecimento da sua tradição” junto ao poder público da cidade.

EncontrodeJongueirosXIII

O que tornou o filme uma via de mão dupla, pois levou os jongueiros do Tamandaré
para outro momento e novas possibilidades de prática e representação do jongo, porém sob a chancela de “autoridades” não originárias da comunidade. E essas “autoridades” se legitimaram em seus respectivos “campos” (na concepção de Bourdieu), através da apresentação e representação do saber oriundo da roda de jongo.

Fonte:  MARTINS, Alessandra Ribeiro – COMUNIDADES E INSTITUIÇÕES: O JONGO, SUA HISTÓRIA E SUAS REPRESENTAÇÕES NO SUDOESTE DO BRASIL NO SÉCULO XXI – TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) – PUC- CAMPINAS (2008)